Serge Daney said that we take care of the things we love,
and they take care of us in return.
Lucía Salas
She’s the sort of person you’d usually only find in books.
em Outside Noise (2021)
Reading then is writing, in an endless movement of giving and receiving:
each reading reinscribes something of a text;
each reading reconstitutes the web it tries to decipher, but by adding another web.
Verena Andermatt Conley, Hélène Cixous: Writing the Feminine
Semanas depois do festival de Berlim, cruzo-me com um velho amigo no jardim da Estrela. Aparece-me como uma visão alucinada ao sol. O crítico e realizador americano Ted Fendt, radicado em Berlim desde 2018, surge em conversa. Kreuzberg, o bairro da cidade onde filmou as suas duas últimas longas-metragens, verdadeiros deleites em 16mm, também. Pergunta se na mais recente, Auslandsreise (Foreign Travel, 2026), estreada no Forum da Berlinale este ano, Fendt continua o retrato dos jovens a divagar pela paisagem urbana. Começo por dizer que sim, mas paro. Que idade terão as suas personagens? Serão consideradas “jovens” ainda? Seremos nós? Descrevo-o como um filme-amizade entre duas pessoas que não são de Berlim. “Também é um filme para ler, sobre a expedição realizada durante o acto da leitura, e este é sobre Anna Maria Ortese!”, cuja obra é, de forma geral, difícil de adaptar a uma qualquer arte visual. Como tradutor exímio que Fendt também é (traduziu entrevistas francês-inglês de Jean Eustache e da directora de fotografia Caroline Champetier tal como ensaios sobre Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, Robert Bresson, entre outros), a viagem a que o título do filme alude é eloquente, código sintáctico para a emocionalidade de humanos que vivem ao sabor daquilo que vão experienciando, nos entretantos de qualquer lugar de encaixe.

Sob o feitiço de feixes de luz quente, especialmente dentro de apartamentos empoeirados, da literatura que tão bem os ocupa, das canecas de café que a acompanha, e de espaços verdes nas cidades – o mesmo paradigma estético do nova-iorquino Ricky D’Ambrose (Notes on an Appearance, The Cathedral) – as personagens de Fendt têm vindo a conquistar o ecrã ao longo dos anos. Da sua trilogia de curtas-metragens idiossincráticas (pagas com o dinheiro que ganhava tanto como projeccionista no Lincoln Center como a traduzir legendas para filmes franceses) até à sua segunda longa-metragem, Classical Period (2018), a obra via-se inundada por não-heróis nervosos e francamente desajeitados, dentro de um estilo de realização muito humilde, carimbado pelo humor inexpressivo, involuntário também, dos seus não-actores. Neles, a vida diária encontrava a sua definição nos fios narrativos que proporcionavam o cruzamento inesperado entre duas pessoas na rua, com um a levar o outro ao seu mundo. O desfasamento entre o que devia ser espontâneo e a sua manifestação forçada apontava para que o objectivo fosse o encontro forçado, sempre receptivo dos dois lados. Assim se começou a manifestar a linguagem naturalista de Fendt, onde ninguém parte à procura do outro, mas acaba sempre por o encontrar.
No cruzamento entre nacionalidades e línguas diferentes, tudo é oportunidade para ler, traduzir, localizar ou até transcriar. Tudo é abertura para fazer acontecer. Auslandsreise é um filme para solfejar (sobre o Eu). Em torno destas pessoas-poesia, Berlim ressoa ao sol e esverdeia, até durante o Inverno.
A partir de Classical Period, o gesto começa a ganhar um outro peso na forma como se desloca da suburbana Philadelphia para um cinema-conversa mais rohmeriano a acontecer em Berlim. Noutras palavras, soalheiro, mais intelectual e investigativo. Isto não quer dizer que o cinema de Fendt é, de alguma forma, seriado como o de Rohmer ou o de Hong Sang-soo, por exemplo. Cada filme do realizador americano é um trampolim para o próximo. O seu interesse reside na mudança que o filme provocará, alimentado em cadeia por todos os outros, com o mais recente a acrescentar algo inexplorado. No cruzamento entre nacionalidades e línguas diferentes, tudo é oportunidade para ler, traduzir, localizar ou até transcriar. Tudo é abertura para fazer. Como ouvimos em Auslandsreise, “a procura é o objectivo”.
Posto isto, nesta sua quarta longa-metragem, a deambulação intensifica-se sem sequer se sair da cidade alemã. E traz consigo a herança da belíssima longa-metragem anterior, Outside Noise, que toca no real, na forma como as suas personagens não fogem da vulnerabilidade de serem elas mesmas em frente aos outros, durante uma viagem que as leva de Berlim a Viena (cidades que separam duas amigas) durante o Verão, pontuado pelas mesmas insónias de Classical Period, mas também teses de mestrado por escrever, empregos temporários e um livro de Sasha Sokolov. Em Auslandsreise, mantém-se a suavidade romântica e definitivamente nostálgica de Outside Noise, tal como a sua sinceridade, e busca-se um lugar onde pousar a cabeça em Berlim. “Estive em dez apartamentos em dois anos. E um hotel”, ouve Leonie (Hanna Döring), antes do amigo (Florian Model) se dirigir a mais um subarrendamento onde viverá durante um curto espaço de tempo, com todos os seus pertences a ocupar apenas uma mala de viagem e uma mochila. Enquanto isso, Leonie acabou de vir de Itália, onde comprou uma cópia de Il porto di Toledo, da escritora italiana Anna Maria Ortense, e quer falar do livro. Mas o amigo, perante o desamparo da sua realidade, perdeu a capacidade para a leitura. Não tem cabeça para se sustentar no mundo de outra pessoa.


O filme prosseguirá assim ao longo de um ano, estruturalmente circular, dividido em capítulos mensais. Enquanto o amigo procura a room of his own, Leonie percorrerá a obra de Ortense (ora lida em alemão, italiano e francês), discutirá os livros e novelas com amigos em bancos de jardim ou em cafés, e através dela verá Berlim e a sua existência como se de uma experiência fora-do-corpo se tratasse. Duas sequências interpretativas mais longas, as sessões do clube de leitura com os amigos (mantém-se a dinâmica triangular de Outside Noise), darão corpo à literatura não só enquanto motor dramatúrgico, com os seus vários fios (as palavras e os silêncios) a interligar e a impulsionar a vida das pessoas que juntas os lêem, mas esta torna-se também matéria cravada no tecido do filme. Cada livro é diferente, repensado nas diferentes interpretações de cada um. Quando de Ortense começam a falar, rapidamente será sobre eles de quem falam. Auslandsreise também é assim: um filme para solfejar (sobre o Eu). Em torno destas pessoas-poesia, Berlim ressoa ao sol e esverdeia, até durante o Inverno.



Auslandsreise prova-se ilustração do estado celestial ocupado quando lemos intensamente, e o que a partir dele se verá transformado. No mundo de Fendt, a ideia de finitude nas nossas narrativas é maligna. Nada pára a mudança.
Fendt olha-a, cidade amada, através da lente daquele que ali escolheu fazer a sua vida. O seu olhar é estrangeiro, ou não seria tão sumptuoso. Durante o acto consciente de criar uma hagiografia de Ortense via Leonie em Berlim, Fendt adiciona ao controlo composicional (o canto de um prédio ao sol, a torre da televisão na paisagem ao fundo) o olhar que segue as suas personagens gramaticalmente, sem ficção geográfica pelo meio. O amigo de Leonie entra e sai do filme a partir da mesma rua, mas em direcções opostas. Quando Leonie caminha pela cidade, anda sempre da esquerda para a direita, da origem até ao destino. Para um filme que se deita em cima de tanta incerteza, há pequenos mas expansivos momentos de epifania. Seguindo uma preocupação em “iluminar o real (…)” ou “quanta verdade existe na realidade e vice-versa” na obra de Ortense, o que Leonie expressa é representação de quem acredita ser: “Eu gosto de não saber”, e depois “Ele questiona-se se o realismo é suficiente para retratar o mundo”. Algures entre a fenomenologia de Readers (2017), de James Benning, onde o espectador lê os leitores enquanto tenta apanhar com as mãos aquele tempo comumente passado de forma solitária, e o cinema que incorpora não só a literatura mas os livros também, enquanto objectos mágicos que são (Hal Hartley, Matías Piñeiro), Auslandsreise prova-se ilustração do estado celestial ocupado quando lemos intensamente, e o que a partir dele se verá transformado.
Fendt concluirá a edificação de uma das mais celebradas escritoras italianas do século XX com Leonie a visitar a única relação viva perto dela à escritora, a sua tradutora alemã. E o que até ali era apenas absorto e subjectivo, ergue-se: viver é viajar é viver. Voltando atrás no filme, quando o amigo de Leonie lhe explicava porque é que não queria ler sobre um lugar num romance (preferia o memoir ou a biografia): “O lugar real não é como o que havia sido descrito e isso incomoda-me. É melhor viajar até lá.” Da imagem projectada à imagem real, estamos sempre à distância da verdade, até finalmente aterrarmos nela. O que Leonie dá a Ortense, a escritora dá-lhe de volta. No mundo de Fendt, a ideia de finitude nas nossas narrativas é maligna. Nada pára a mudança. O encontro decorrerá, o outro será receptivo a ele, e um percurso inesperado acabará traçado. Porque criamos, de facto, as nossas vidas. E isso não pára de ser verdade, independentemente da nossa idade. Leonie passa Auslandsreise a ler. Nos últimos minutos, escreve.

